O homem era egoísta, profundamente egoísta, realmente pensando apenas em si, sem se preocupar com o outro. Quando um colega de trabalho faleceu, ele foi a velório, lotado por familiares e amigos do falecido, que pranteavam sua morte. E todos os que conheciam o egoísta ficaram surpresos ao vê-lo chorar tanto durante o velório. Será que amava tanto o colega falecido e nunca expressara esse amor? Na verdade, ele chorava, pois imaginava como seria o seu próprio velório e como o estariam pranteando.
PAI E FILHO
O jovem seminarista foi até a casa do velho bispo,
chamado por este. Sentaram-se ambos à varanda, olhando a noite quente, sem
falarem muito. Geralmente era assim que se encontravam. O seminarista sabia que
o seu bispo necessitava mais de companhia do que de palavras.
Como sempre, o idoso oferecia um bom vinho, mas o
jovem, que não bebia, recusava, aceitando, no entanto, refrigerante, suco ou
mesmo água.
Naquela noite, o bispo, olhando para um cigarrete que
fumava, disse ao seminarista, após longo silêncio de contemplação do infinito:
- Quando eu era jovem, na Alemanha, meu pai, em
algumas noites quentes em que ficávamos na varanda de casa nos refrescando,
dava-me um cigarrete como este e ambos fumávamos juntos. Eu sentia aquilo como
um rito de passagem para a idade adulta, como não fosse eu mais uma criança,
mas um homem.
E silenciou, seus olhos perdidos na noite escura.
O jovem entendeu então o que devia fazer. Ele, que
não fumava, pediu ao idoso um cigarrete daqueles. Os olhos do bispo
iluminaram-se. Estendeu a caixinha para o seminarista, que pegou um e acendeu,
fumando vagarosamente junto com o bispo.
Ao terminarem, o bispo olhou para o seminarista e lhe
disse:
- Muito, mas muito obrigado mesmo.
Um gesto tão simples e um elo de pai e filho os
acompanhou por toda a vida.
UMA HISTÓRIA PORTUGUESA
Eu tinha
sete anos. E apesar de se terem passado mais de trinta anos, lembro-me daquele
dia em detalhes.
Logo pela
manhã, papai colocou-me no carro e, sem me dizer aonde íamos, dirigiu longo
tempo em direção ao Alentejo, de onde era originário, parando na área rural de
Elvas.
O sítio no
qual parou era um criadouro de ovelhas.
Após descer
do carro e cumprimentar o proprietário, disse-me:
− Escolha
uma!
Fui
colocado em um cercado com dezenas de ovelhas ainda novas. Enquanto papai
conversava com o criador das ovelhas, fui brincando com elas e acabei por me
afeiçoar a uma em particular, que brincava comigo forçando sua cabeça contra
meu corpo.
Quando
papai perguntou-me qual eu havia escolhido, não tive dúvidas e apontei a minha
preferida.
Pensei que
a levaria para casa, mas papai combinou com o proprietário para que a
entregasse no sábado seguinte em casa, completando:
− Domingo é
aniversário aqui do miúdo!
Chegado o
domingo, à hora do almoço toda a família posta à mesa, mamãe entrou na sala de
jantar com uma grande travessa com um assado. Os convidados aplaudiram. Papai,
então, disse-me:
− Eis a
ovelha que escolheste!
Naquele
dia decidi-me a ser vegetariano. E descobri que o amor às vezes pode ser
perigoso.
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